Incêndios Florestais: Dos Problemas às Soluções

Wildfires Portugal (Newmanity)

By Christina Lopes, CEO & Founder, Newmanity Wellness & Healing

Aconteceu de novo. Enormes incêndios florestais atingiram o nosso maravilhoso país, Portugal, desta vez matando 41 pessoas e ferindo 71. Em Junho passado, tinha escrito um post acerca de um outro incêndio florestal que atingiu o nosso país, dessa vez matando 64 pessoas.

Foi um post emocional que escrevi no Facebook com o intuito de partilhar informação valiosa que esperava que ajudasse os portugueses a ultrapassarem o estado de receio e raiva que sentiam em relação ao nosso governo.

Sim, a estratégia de prevenção de incêndios do governo é, sem sombra de dúvidas, um perfeito caos.

Dependemos de empresas privadas de combate aos incêndios que são contratadas no nosso país vizinho, Espanha, pois não dispomos (!?) de aviões, helicópteros e outros recursos necessários ao combate de grandes incêndios com frentes múltiplas. Como se não bastasse, os nossos planos internos e gestão de pessoal especializado são também um desastre, especialmente considerando que somos um país muito propenso a fogos. Pressupomos que qualquer governo deveria estar preparado para algo que já se tornou ‘norma’ no seu país. Mas não.

Ainda assim... a verdade é que os incêndios florestais não são iniciados pelo governo.

De modo a compreender como começam estes fogos temos de recuar atrás no tempo, pois há muito a dizer para além do que é veiculado pelos media.

Em Junho quando escrevi o tal post, vi uma fotografia que me deixou perplexa por demonstrar o poder da natureza: tanto de destruir como de sobreviver. Era a imagem de uma propriedade privada com uma floresta saudável e de como ela havia milagrosamente (ou nem tanto) sobrevivido às brutais chamas:

Hoje, quatro meses após esse incêndio devastador, estamos de novo na mesma situação. E desta vez gostaria de elaborar de forma mais profunda o meu anterior post de Facebook.

Um dos pilares da Newmanity assenta na proteção e regeneração dos ecossistemas naturais. Continuaremos a fazer tudo o que pudermos para educar, aprender e colaborar com todos aqueles que desejam deixar o nosso planeta num melhor estado para as próximas gerações.

Se não for o nosso governo, quem mais será culpado pelos incêndios florestais?

No início deste ano, a BBC escreveu um artigo debruçando-se sobre esta mesma questão.

“Os incêndios florestais são uma ameaça anual em Portugal. Mais incêndios surgiram entre 1993 e 2013 do que em Espanha, França, Itália ou Grécia, informou no ano passado a Agência Europeia do Meio Ambiente, apesar do tamanho geográfico relativamente pequeno do país.
Dado isso, seria a tragédia deste ano evitável? Poderia Portugal ter feito algo mais para salvar vidas e minimizar os danos?
O quê mesmo é que torna Portugal tão propenso?”

1. Propriedade de terrenos.

85% das florestas portuguesas são de propriedade privada mas as parcelas são relativamente pequenas e dispersas entre vários proprietários. Esta fragmentação dificulta a implementação de estratégias eficazes de prevenção ou sancionamento legal.

2. Falta de biodiversidade.

As nossas florestas foram transformadas em monoculturas, com plantações excessivas de Eucaliptos: uma árvore produzida para a indústria da madeira e do papel (celulose). Devido ao seu valor económico, o eucalipto é plantado sozinho, em vez de rodeado de espécies resistentes ao fogo como carvalhos, oliveiras, castanheiros e sabugueiros.

O facto mais devastador em relação aos Eucaliptos é que eles adoram fogo! Aliás, esta espécie não só induz o próprio fogo como se reproduz mais quando cercado pelo mesmo.

3. Respostas de emergência ineficazes.

Como já foi acima mencionado, as estratégias e planos de combate aos incêndios em Portugal são altamente deficitários, especialmente nos territórios interiores e rurais. Nas zonas menos povoadas de Portugal, a desertificação causou o encerramento em massa de hospitais, escolas, estações de bombeiros e outras infra-estruturas críticas para uma estratégia de emergência concertada e eficaz.

E agora? O que pode ser feito para mudar o rumo dos acontecimentos?

Infelizmente, não há soluções rápidas para este problema. Mas há certamente estratégias de médio e longo prazo que podem não só regenerar a paisagem mas sobretudo alterar a mentalidade ecológica dos portugueses.

Eis algumas abordagens possíveis:

1. Educar as comunidades acerca da importância da sustentabilidade.

A educação é essencial para que haja uma mudança em massa relativamente à sustentabilidade ambiental. Precisamos de ajudar a educar os nossos conterrâneos sobre a necessidade de florestas biodiversas e a razão pela qual são essenciais para nossa sobrevivência neste planeta.

Mas a educação precisa de ir muito além de um leve entendimento técnico sobre monoculturas, eucaliptos ou outras espécies de árvores que devem ser plantadas nas nossas florestas. Os princípios de educação devem focar-se nos "porquês" de ter monoculturas em primeiro lugar.

E isto leva-nos ao ponto 2.

2. Fornecer oportunidades económicas aos proprietários de terrenos.

Claro que é já um enorme passo educar as populações sobre a necessidade da biodiversidade nas nossas florestas. No entanto, devemos ir mais longe e responder a esta pergunta:

Por que é que estes proprietários plantam monoculturas de eucalipto em primeiro lugar?

Tudo se resume a uma simples questao economica. O eucalipto é uma árvore lucrativa que cresce rapidamente e fornece celulose para a indústria do papel. Então, qual seria o incentivo económico para um proprietário começar a plantar Carvalhos, Castanheiros ou Sobreiros?

Aqui é onde um dos meus conceitos florestais favoritos vem ao de cima. É chamado de agrossilvicultura. Na agroflorestação, a floresta é também o local onde são produzidos alimentos tornando-se desta forma, numa fonte de rendimento adicional sustentável.

Para mim, o maior mestre da agrossilvicultura é o investigador e agricultor Ernst Gotsch, que inventou a agricultura sintrópica. As suas ideias e conhecimento estão agora a ser ensinados em todo o mundo, em especial no Brasil país onde Gotsch transformou com sucesso uma "zona morta" de 1000 hectares, numa floresta exuberante que também produz toneladas de alimentos.

Para mais informações sobre a agricultura sintrópica, desafio-te a assistires a este incrível documentário.

2. Parcerias e Comunidade.

Em última análise, o sucesso de uma mudança de mentalidade em relação à conservação e regeneração de nossas terras reside na força das comunidades e parcerias que se estabelecem. Para regenerar a nossa terra, devemos trazer parceiros estratégicos e experientes que nos possam ajudar a fazê-lo.

Por exemplo, sabias que Portugal já possui uma comunidade bem sucedida no Alentejo, que foi capaz de regenerar um terreno que antes havia sido desperdiçado? Chama-se Tamera e o trabalho que fizeram é notável. Basta dar uma vista de olhos nas imagens do antes e depois da propriedade. Os engenheiros de Tamera entenderam a necessidade de captar água e criaram lagos para esse fim.

Credits: www.tamera.org

Credits: www.tamera.org

Imaginem só o que seria se esta experiência e conhecimento fosse compartilhado com todos os portugueses? Teríamos seguramente um movimento nacional de sustentabilidade e regeneração ambiental com inegável impacto positivo nas populações.

Paralelamente precisamos também de criar plataformas onde todos proprietários possam escoar e comercializar de forma justa as suas produções, sem se verem forçados a entrar em cartéis agrícolas que apenas beneficiam os grandes retalhistas ou intermediários.

Quanto mais conectada for a rede de proprietários de terras, empresas privadas, comunidades e organizações governamentais - mais comprometidos serão todos em relação à conservação da natureza.

3. Sanções legais para os proprietários privados que plantam monoculturas.

Esta solução pode não ser muito bem vista por alguns, mas, na minha opinião, é também necessária. Tenho uma mentalidade muito "americana" nesse sentido.

Nos Estados Unidos, e porque contrariamente à Europa o país evoluiu sem um governo centralizado, depende-se em larga medida do sistema judicial e dos direitos de propriedade individual. Mas há mais do que isso no sistema americano: fortes direitos de propriedade também significam responsabilidades elevadas para proprietários privados.

Nos Estados Unidos, quem é detentor de uma propriedade privada e age, direta ou indiretamente, em prejuízo de um vizinho ou comunidade em geral - é fortemente sancionado.

Do mesmo modo em Portugal, e porque 85% das florestas são de propriedade privada, cada proprietário deveria ser responsabilizado por decidir plantar monoculturas altamente susceptíveis a incêndios, e consequentemente a matar pessoas, destruir propriedades e meios de subsistência de terceiros.

4. Planos nacionais de resposta a emergências eficazes, especialmente para as áreas mais desertificadas do país.

Este ponto parece-me óbvio. Ao mesmo tempo que estou a escrever este post, a Secretária de Estado da Administração Interna abandona o cargo, sob pressão do Presidente da República Portuguesa. Mas isso é apenas um começo. O governo tem de ser mais "ágil" e orientado a soluções.

Terá de recorrer rapidamente a aconselhamento de especialistas e representantes das próprias comunidades, para que possa de forma eficaz redesenhar e implementar novas soluções nestas matérias.

Felizmente parece que a temporada dos fogos de 2017 terminou em Portugal pelo que espero que durante os próximos meses de "calma", o governo aproveite para criar um plano nacional para enfrentar as emergências futuras.

A regeneração de Portugal - e de todo o nosso planeta - levará tempo, paciência, amor pela Mãe Terra, e resiliência.

Mas para tal será fundamental que continuemos a caminhar em direção a uma sociedade mais equilibrada e consciente de que , sem os nossos recursos naturais, não podemos sobreviver.

O que achas sobre as soluções que propomos?