5 Coisas Que Aprendi Em Dois Meses Na Estrada

Com a vida (e o trabalho) numa mochila.

na-estrada-newmanity

By Madalena Silva, Lead Designer & Brand Guru at Newmanity


E se pudesses trabalhar mesmo estando de férias? E se pudesses viajar pelo mundo levando o escritório às costas? E se pudesses enfiar a tua vida numa mochila e viver bem com apenas isso? E se… e se isto for mesmo possível? 

Alguns chamam-nos de nómadas digitais, outros de trabalhadores remotos ou de localização independente, e outros ainda de saltimbancos tecnológicos – mas seja qual for o nome mais in do momento, o que importa é que eles (nós?) existem e estão cá para mudar os paradigmas do mundo do trabalho atual – sem localizações fixas, horários rígidos e manhãs passadas no trânsito.

Vamos lá contextualizar:

em Março deste ano arrumei a minha vida em duas mochilas e parti sem data de regresso.

Não me despedi do trabalho; não vendi a minha casa (qual casa!?); e não parti à procura do meu verdadeiro eu. Mas se quiserem saber um pouco mais sobre como começou esta jornada pela liberdade, podem ler aqui (em inglês). 

Desde então já estive a passear pelas montanhas cobertas de neve da Inglaterra; já estive nas praias maravilhosas, cidades caóticas e montanhas deslumbrantes da Índia; e também já estive na capital vibrante e ilhas paradisíacas da Tailândia – tudo isto enquanto mantenho o meu trabalho remoto na Newmanity e começo a dar os meus primeiros passos como freelancer.

Hoje escrevo-vos a partir do meu bungalow na ilha paradisíaca de Koh Chang. Há uma semana editava um vídeo a partir do quarto de hotel em Bangkok. Há duas agendava publicações a partir das montanhas de Munnar e há três formatava um e-book após um dia a passear de barco pelos canais de Alleppey. 

Seja onde for que esteja, tudo o que preciso é do meu computador e de uma ligação estável à internet (o que nem sempre é fácil!). Para além disto, preciso sempre do meu telemóvel, uma powerbank, auscultadores e o meu disco externo.

Tendo isto, não há trabalho que não consiga fazer. 

Mas como nem tudo é um mar de rosas - e este estilo de vida é uma opção que não só pressupõe experiências incríveis mas também vários sacrifícios – venho contar-vos 5 coisas que aprendi nestes últimos dois meses. 

 

 

#1 DEFINIR UM PLANO É MEIO CAMINHO ANDADO PARA NÃO TE PORES A ANDAR ASSIM QUE ATERRARES

Partir sem data de regresso mete medo, e se és um(a) mariquinhas como eu (que quase se esconde debaixo da cama quando dá uma trovão), então mete muito medo! Por isso, antes de partires, convém assegurares certas coisas: desde as economias, aos destinos, aos vistos e vacinas. Num estilo de vida que é um tanto ou quanto instável, planear dá-te sempre alguma segurança e permite não te sentires cansado e esgotado tão rapidamente.

Por outro lado e acima de tudo - não te prendas demasiado aos teus planos e fica aberto a mudanças. Eu, por exemplo, comecei por achar que ia passar 6 meses em Goa e acabei por passar 2 meses não só em Goa mas também em mais uns 6 ou 7 sítios, e não fez mal nenhum! 

 

 

#2 A PRESSA É INIMIGA DA CONCRETIZAÇÃO... DE SEJA O QUE FOR! 

Se achas que vais saltitar de um lado para o outro a cada 3 dias e ainda assim ser super produtivo no trabalho, ora, estás muito bem enganado! Um dos aspetos mais difíceis deste estilo de vida é saber separar-nos dos turistas ou mochileiros (sobretudo quando já se foi um… por 15 meses!). Para conseguir trabalhar de forma produtiva, sem estoirar a conta bancária e mantendo alguma sanidade mental, é necessário viajar DEVAGAR. E que bom que é podermo-nos dar a esse luxo!

Não ter data de regresso significa não ter pressa, podemos fazer tudo nas calmas e passar mais tempo em cada sítio. Se possível, e para poupar uns tostões, tentar viver da mesma forma que os habitantes locais vivem, utilizando transportes públicos e comendo em restaurantes típicos.

Mas atenção, nunca tentar ser fully local – não escovar os dentes com a água dos canais onde passam barcos, onde se lava a loiça suja e se esfrega a roupa... como se faz na Índia!

 

 

#3 O INSTAGRAM É INCRÍVEL, MAS É UMA ILUSÃO! 

Há o mito de que este estilo de vida é uma cadeia ininterrupta de aventuras e sítios exóticos. E aliás, o instagram vem comprovar isso mesmo. Mas o que não é visível – sobretudo porque daria um post muito chato – é que para além das aventuras e sítios incríveis, há muitos dias banais de trabalho, lavandaria ou mesmo de pura preguiça.

A realidade e o que se vê nas redes sociais não podiam ser mais diferentes, e o que vêm na minha conta de instagram é um belo exemplo disso. Vamos lá ver, o meu cenário normal é isto: passo o dia todo sentada/ deitada/ pendurada na cama, com o portátil a ferver ao colo e com a ventoinha a bater na cara – porque espaços de cowork são muito caros ou muitas vezes inexistentes, um quarto de hotel com ar condicionado também e a comida naqueles cafés de capa-de-revista ainda mais – mas ao final do dia vou dar um mergulho na praia paradisíaca ou subo a uma casa na árvore com uma vista incrível.

E lá está. Uma foto fantástica com imensos likes no instagram, check! E toda a gente a achar que passo os dias a passear, double check

 

 

#4 HAJA FÉ, EM SEJA O QUE FOR, PORQUE ISTO NEM SEMPRE É FÁCIL!

Ser nómada digital parece ser o sonho de muita gente, mas não é para todos. Os principais benefícios são claro, a liberdade geográfica e a possibilidade de explorar novos países e culturas sem restrições nem datas. Mas há muitos contras, que muitas vezes são subvalorizados ou ignorados, mas que são tão relevantes quanto os prós:

  • Saudade – já não estive lá na cerimónia de graduação da minha irmã nem na grande festa de 80 anos do meu avô. Mesmo com as redes sociais e vídeo-calls, os momentos especiais que perdemos são muitos e é importante aceitarmos isso como uma condição do que estamos a fazer. Para além disto, há relações e amizades que ficam para trás, há hobbies que se têm de abandonar e hábitos de que se têm de desfazer (tipo comer chocapic ao pequeno almoço ou ir almoçar a casa dos avós ao fim de semana).

 

  • Solidão – tenho a sorte de ter um parceiro que me acompanha nestas aventuras e desventuras, mas mesmo assim, e mesmo não sendo propriamente uma pessoa de pessoas, dou por mim a sentir falta delas. Estarmos em constante movimento, e sobretudo para alguém introvertido como eu, torna difícil a criação de novas amizades. Primeiro, porque a maioria das pessoas que conheces são viajantes que estão de passagem. E segundo, porque se estás sentado num café com um computador em frente à cara, não é propriamente sinal de quem quer fazer amigos.

 

  • Motivação – ou a falta de. Manter-se motivado a trabalhar enquanto se viaja não é fácil. Há dias produtivos e outros nem tanto. Há dias em que encontras o spot ideal e produzes imenso e há dias em que ficas fechado no quarto de hotel e quando dás por ti já está de noite e nem fizeste nada de especial. Para além disto, encontrar o equilíbrio entre explorar e trabalhar é difícil. E encontrar a motivação para o fazer quando não tens a infraestrutura certa – secretária, cadeira confortável, boa iluminação, temperatura adequada, colegas/ ambiente de trabalho - é ainda mais.

 

  • Bem-estar - outra das tarefas mais difíceis é manter-se saudável – corpo e mente. Quando se muda de sítio com muita frequência, fica difícil criar uma rotina que funcione em todo o lado. Há questões que surgem cujas respostas variam sempre consoante o sítio, o que por vezes se torna verdadeiramente esgotante. Onde praticar exercício? Onde comprar comida que não seja cara? O que comer hoje, para não repetir o mesmo prato de ontem, e anteontem, e antes de antes de ontem? Onde comprar um cartão sim para garantir que estou sempre conectado? Onde trabalhar de forma a ser produtivo? Onde viver/dormir esta noite? Para uma indecisa nata como eu, isto soa-me a decisões, decisões e mais decisões.

 

 

#5 NO FINAL DE CONTAS, SER NÓMADA É BOM, BARATO E RECOMENDA-SE!

Todas as decisões que tomamos nas nossas vidas são um resultado da nossa análise de prós e contras. Embora existam muitas coisas difíceis de gerir (e de digerir!), pelo menos para mim, os prós compensam os contras: 

  • Liberdade – o poder de escolher é a melhor coisa que este estilo de vida nos dá - desde escolher o país, o local, as horas ou as pessoas com quem trabalhamos, vivemos e convivemos. Todas as escolhas são nossas e com isto, a responsabilidade também (o que pode por si só ser desafiante para algumas pessoas). Ser um nómada digital significa ter total controlo e responsabilidade sobre o nosso tempo, tendo a flexibilidade de poder adaptá-lo às nossas próprias necessidades.

 

  • Custo de Vida – há o mito de que viajar é caro e que só os ricos o podem fazer, mas não é bem assim. Claro que viajar para destinos de luxo, ficar em resorts e passar o dia a beber cocktails, fazer compras e a levar massagens, é caro! Mas para quem quer muito viajar e não tem um grande budget, é possível na mesma – e eu sou prova disso! Em dois meses na Índia gastei menos de 300€ por mês... se bem me lembro, isto é o preço dum quarto em Lisboa. E não, não dormi debaixo da ponte nem andei a comer só arroz a todas as refeições. Aqui dá mesmo para viver confortável e feliz com pouco!

 

  • Variedade – a minha mãe sempre se queixou que nem um filme da Disney se é que eu conseguia ver até o fim. Para alguém como eu, que não se consegue concentrar duas horas na mesma história, o facto de poder mudar de sítio ou mesmo de país quando bem me apetece, é simplesmente maravilhoso! Além disso, viajar traz um enriquecimento intelectual imenso. O facto de nos podermos conectar com pessoas e culturas diferentes e aproveitar cada momento da vida sem limites geográficos é um verdadeiro privilégio.

 

  • Infinitas Possibilidades – um outro mito é que ser um nómada digital significa abdicar das ambições profissionais, e isso não podia estar mais longe da verdade. O trabalho remoto permite teres oportunidades de carreira sem restrições de localização. Desta forma, podes cooperar com aquela empresa e/ou pessoa de sonho que está no Canadá, na China ou na Tanzânia, sem de facto teres de lá viver. Muitos nómadas digitais são, aliás, pessoas bastante ambiciosas que gerem os seus próprios negócios ou trabalham como freelancers.

 

Andar pelo mundo com uma mochila e um trabalho às costas não só é possível como também é uma das grandes tendências do futuro do trabalho – e é importante que as organizações percebam que este tipo de flexibilidade traz mais benefícios que prejuízos; que o bem-estar dos seus trabalhadores se reflete no bem-estar da organização; e que não é preciso ter horários rígidos e passar horas no transito para conseguir produzir resultados brilhantes. 

Para mim, o futuro do trabalho está nisto mesmo:

na flexibilidade, na felicidade, na conexão e na cooperação.