Algumas Pistas Para o Futuro do Trabalho

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By Ana Vargas SantosConsultora de Recursos Humanos


O Tiago nasceu há seis meses. Daqui a 20 anos, em maio de 2038, terá provavelmente a sua primeira experiência profissional. O anúncio, publicado por uma plataforma de escrita aumentada, ser-lhe-á recomendado pela sua assistente virtual. Todo o processo de seleção será conduzido online, com desafios de dificuldade crescente sendo lançados com base nas suas respostas. Até ao final do processo não contactará com uma única pessoa. E depois de selecionado, que trabalho irá fazer? Será ele ou o carro a conduzi-lo? Sairá sequer de casa? Como serão os seus dias? E como podem os pais, os educadores e a sociedade prepará-lo para um futuro que ainda não são capazes de antecipar?

No passado, as competências técnicas eram a garantia de um futuro seguro. A geração dos pais do Tiago, nascida entre os anos 80 e os 90, cresceu a ouvir “Tens que te especializar em alguma coisa”. Hoje, ser especialista não chega. As competências técnicas continuam a ser importantes, mas correm o risco de rapidamente se tornar obsoletas. Por isso, empresas como a IBM procuram “colaboradores em forma de T” - a linha vertical representa o conhecimento em profundidade sobre um determinado tema, enquanto que a linha horizontal representa a capacidade de alternar entre áreas com facilidade e confiança.

 

Essa flexibilidade só é possível, acreditam os especialistas, se encararmos a aprendizagem como um processo contínuo.

 

John Leutner, Responsável Global de Formação da Xerox, defende que não podemos continuar a olhar para a educação como um processo com um início e um fim definidos. A Universidade de Stanford sabe-o, e por isso desafiou um conjunto de alunos a redesenhar o seu modelo de educação. O resultado a que chegaram foi o que chamaram de open loop university, em que os estudantes passariam a dispor de um crédito de 6 anos para entrar e sair livremente da universidade, à medida que fossem sentindo necessidade. Do lado das empresas também se procuram novas soluções para acompanhar o ritmo da mudança. Na Buffer, por exemplo, foi criado o conceito de aprendizagem sabática, em que um colaborador pode fazer uma pausa de cerca de 3 meses nas suas funções para desenvolver novas competências.

Afinal, o que representam 3 meses numa vida de 100 anos? Lynda Gratton, Professora na London Business School, acredita que as etapas de vida claramente definidas - aquela idade em que toda a gente começa a trabalhar, toda a gente se casa, toda a gente tem filhos - vão deixar de existir. Cada pessoa viverá ao seu ritmo. O designer Stefan Sagmeister é um defensor desta ideia - ao concluir que não lhe fazia sentido passar 25 anos a estudar, 40 a trabalhar e 15 na reforma, decidiu retirar 5 anos a esta última etapa e dispersá-los ao longo da sua carreira. Assim, a cada 7 anos, fecha a sua empresa durante um ano para se dedicar a experiências que de outra forma não seriam possíveis.

 

Experimentar será aliás, de acordo com Lynda Gratton, o verbo mais conjugado do futuro.

 

Há quem defenda por exemplo que a visão tradicional da carreira como um túnel chegou ao fim, e que hoje ela deve ser vista como uma longa série de experiências de cariz quase científico. John Hagel, que lidera o Centro de Investigação da Deloitte em Silicon Valley, atreveu-se ainda assim a avançar algumas hipóteses de profissões com futuro, num encontro organizado pela Singularity University em 2017. A lista tem tanto de simples como de surpreendente: artesãos, coaches e criadores de experiências. O que as três têm em comum é a capacidade de dar resposta à procura da essência do que é ser humano - criar peças únicas, desenvolver-se e viver momentos com significado.

 

“A progressiva automatização irá provavelmente conduzir a um aumento enorme nas horas de lazer ao dispor do trabalhador médio. O lamentável é que muitos desses trabalhadores não saberão o que fazer de todo esse novo tempo livre.”
 

A afirmação é de Viktor E. Frankl, o psicoterapeuta que sobreviveu a Auschwitz, e foi escrita em 1962 no seu livro “O homem em busca de um sentido”, mas poderia ter sido dita ontem num debate sobre a evolução tecnológica. Prevê-se que a partir de 2040 os veículos autónomos possam vir a libertar 50 minutos por dia aos seus utilizadores. Quando tiver 30 anos, em maio de 2048, o Tiago terá aprendido a viver esse tempo livre porque nós, a geração dos seus pais, teremos dado o exemplo. É esse futuro que nos cabe construir.

 


 
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A Ana é Consultora de Recursos Humanos, formada em Psicologia e apaixonada por pessoas, ideias e palavras. Escreve sobre aprendizagem, auto-desenvolvimento e gestão de carreira. Para te conectares com a Ana, clica aqui