Amor e Propósito: o Novo “Employee Experience”

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By Filipa Larangeira, CEO & Founder, Newmanity


Sou apaixonada por aprender, por escutar estórias e conhecer pessoas que me façam pensar ou simplesmente sentir algo diferente. E que enorme catalisador da nossa evolução são as relações humanas!

Privilegio sempre a experiência, o aprender fazendo ou aprendendo com quem já fez, por oposição ao ensino meramente teórico-abstracto. Esse sempre me causou alguma sonolência, em especial quando leccionado às 8.30 da manhã. :)

Recentemente, comecei um curso de desenvolvimento pessoal — para além daquele em que participo diariamente, também conhecido como “vida”.

Escolhi-o em detrimento de mais uns tantos pertinentes à minha actividade profissional, mas com consciência de que não se começa a construir um edifício pelo telhado, mas antes pelas suas fundações. E o que estou agora a aprender tem que ver precisamente com isso: com tornar mais robustos os pilares da minha existência.

Diz o autor do curso, Lee Harris, que começamos cada vez mais a assistir a um despertar de consciência de pessoas que buscam propósito nas suas vidas e que isso poderá ocorrer em consequência de episódios dolorosos — como certas eleições presidenciais, casos de abuso sexual, um divórcio ou uma doença  —  ou simplesmente porque um dia têm uma epifania e já não querem ser “somente” uma Directora de RH de uma empresa.

Mas não é apenas Lee Harris que o diz. Numa toada mais “científica” diz Daniel Pink no seu famoso livro “Drive”, que os verdadeiros factores motivacionais do ser humano são a Autonomia, a Mestria e/ ou o Propósito. E define Propósito como o “Desejo de realizar algo com significado e que é relevante”.

Acrescenta ainda que as empresas que apenas visam o lucro, ou seja, que não têm qualquer outro propósito que não o financeiro, acabarão por ter um serviço de apoio ao cliente miserável e uma força de trabalho infeliz.

Ora clientes e colaboradores infelizes não são sinais particularmente auspiciosos para um negócio.

A questão aqui prende-se com o facto de estes temas aparentemente “menores” ainda não terem chegado aos bolsos das lideranças das empresas, por mais que, no fundo, as suas mentes ou mesmos as suas consciências já os tenham advertido do perigo em que incorrem com esse gesto negligente.

Talvez por isso se tenha criado recentemente o conceito de “Employee Experience”. Passámos do paradigma da Era Industrial, em que o colaborador era um mero número e um meio para atingir um fim, para um modelo de algo disfuncional.

Neste novo paradigma organizacional, a empresa é uma espécie de progenitor que perante a sua falta de tempo para conversar com o filho e entender as suas reais necessidades, o compensa comprando o último modelo de iPhone.

A respeito deste tema falarei melhor no evento Employee Experience Bootcamp, no próximo dia 8 de Fevereiro.

Daniel Pink vem, mais tarde, aprofundar o tema do propósito ou da procura de um significado maior nas nossas vidas, no seu livro “ A Nova Inteligência”, a meu ver ainda melhor leitura que o seu antecessor “Drive”. Diz ele:

“(…)a transformação mais significativa da Era Conceptual está a ter lugar fora dos locais de trabalho  —  dentro dos nossos corações e das nossas almas”.

Tendo em conta que Pink é um conceituado autor de temas da gestão, a frase poderá chocar os mais sensíveis, ao conjugar de forma audaciosa as palavras “local de trabalho”, “coração” e “alma”. Nos tempos que correm ninguém ousa misturar tais conceitos!

É como uma outra expressão curiosa “Work-Life Balance”: ainda estou para perceber em que medida o trabalho se situa numa esfera distinta do amplo espectro da vida. Na minha e de muitos que conheço, o trabalho não só ocupa 1/3 daquela como é uma das mais importantes formas de realização pessoal, seja pela componente criativa seja por uma outra, tão negligenciada, a da conexão humana.

No mundo empresarial (e qui ça além deste) pisa-se um palco e representa-se o papel de uma persona que de tanto ser interpretada passa a ser identidade.

Neste cenário de fato e gravata, de MacBooks ou mesas de ping-pong, as emoções são proibidas, as regras prevalecem à ética e à moral, as pessoas são escravas dos processos, de horários absurdos ou de outras pessoas que se esqueceram que podem  —  e devem!  —  questionar tudo isto.

E é aí que entra o propósito, o tal sentido maior para uma vida.

Ele começa a espernear quando ficamos doentes, exaustos, desnorteados, desumanos. Quando estamos confortáveis financeiramente mas a vida parece não ter sabor, quando somos pais e não queremos ser “só isto” para os nossos filhos, quando levantar da cama de manhã passa a ser um sacrifício, quando nos divorciamos, quando passamos a ter vergonha na qualidade do nosso trabalho, quando olhamos ao espelho e já não reconhecemos aquela pessoa velha e amarga que ali está…

As boas notícias é que o propósito não tem data de validade e por mais anos que passem, nunca nos deixa e estamos sempre a tempo de o resgatar.

Eu acho que falamos demais, esforçamo-nos demais, fingimos demais e questionamos de menos. E falamos tanto, fazemos sempre tão a correr, acatamos simplesmente porque sim e fingimos com tamanha convicção, que nos esquecemos do que é realmente importante como ouvir, amar, sentir e, espantem-se, ser.

Para que não restem dúvidas do conceito de “realmente importante” façamos o seguinte exercício: como passarias as últimas horas da tua vida? Simples, não?! ;)

Mas eu não “acho” apenas. Ouso dizer que “sei” porque há anos que o observo em salas de reuniões, no lusco fusco da discoteca, ou nas linhas dos posts das redes sociais.

E não o digo em tom de julgamento, porque quem ama não julga, e eu amo profundamente a espécie humana e é ela um dos meus propósitos. Aliás, como poderia julgar algo que também sou!?

Disse-me uma cliente, há cerca de um mês em conversa informal, que o meu trabalho nas empresas ia muito além da consultoria estratégica ou do desenvolvimento pessoal. O que eu realmente fazia era “simplesmente” amar cada uma das pessoas que conhecia e isso fazia-as sentirem-se especiais.

Nunca tinha visto as coisas por este prisma, mas é essa a mais pura das verdades.

A falta de amor é a maior carência dos tempos modernos e a mais ignorada, por vergonha, desconhecimento ou simplesmente por falta de prática.

Faz-me lembrar um poster que vi aqui há tempos numa das ruas de Lisboa. Dizia:

A minha esperança é a de que se fale mais do que importa: de empresas e vidas vazias de amor-próprio e em consequência d’outrem, de conexão humana, de compaixão e empatia, de verdade e liberdade para simplesmente sermos quem somos, seja quando escolhermos sê-lo.

E se no final do dia não fomos os melhores, não estivermos no ranking da Forbes ou tivermos o job title sonante, mas vivermos em verdade, liberdade, num amor imenso por tudo o que somos e fazemos e deixarmos o mundo um pouco melhor do que o encontrámos, então talvez aí encontremos o que nos faltava… propósito.