Calorias, Gordura e Hidratos - Bichos-papão ou Talvez Não?

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By Carolina Germana, Interna de Pediatria & Fotógrafa Amadora


Sou uma pessoa de pessoas. Desde criança que me preocupo e cuido de outros e atualmente, como interna de pediatria, dedico-me a cuidar da saúde dos mais pequenos. Por acreditar que “de pequenino se torce o pepino” é que quero, além de curar e tratar doenças, informar e transmitir conhecimentos básicos para um crescimento saudável.

Um dia um Professor disse-me:

“practice what you preach”

Na altura, a meio do curso de medicina, esta frase fez-me todo o sentido. No entanto, quando comecei a refletir sobre ela, apercebi-me que não estava a fazê-lo. Como poderia eu dar recomendações de saúde a outros sem ter esses cuidados comigo mesma?

Há infelizmente uma lacuna enorme na formação médica – a área da nutrição. Na altura pensei como é que era possível uma área de tal influência na saúde ser negligenciada desta forma. Por esta e outras razões, comecei a querer saber mais e a procurar informação.

Sobre nutrição, há opiniões que nunca mais acabam e a minha será só mais uma, com a subjetividade e crítica a que tem direito. É uma área controversa, em constante mudança e de estudo difícil. Além disso, depende das individualidades de cada um. Depende da idade, da atividade feita por dia, de gostos, hábitos e intolerâncias.

Há cada vez mais pessoas a tomar posições em relação à dieta que querem introduzir e manter ao longo da vida. Dietas com baixo teor em gordura ou hidratos, ricas em fibra ou proteínas. Dietas vegetarianas ou semi-vegetarianas, com ou sem laticínios ou ovos, e ainda as vegan. Dietas para emagrecer, engordar ou ganhar massa muscular. Todas estas opções existem e são válidas, desde de que se faça a escolha certa dos alimentos a ingerir. Além disso, tudo depende de crenças e de valores que cada um defende. O importante é estar informado e sentirmo-nos bem, corpo e mente.

Hoje falo-vos especificamente de 3 “bichos-papão” da nossa ingestão diária: as calorias, os hidratos e a gordura.

 

As calorias: são irrelevantes!

O número de calorias ingeridas por dia não nos torna mais ou menos saudável. Contar calorias e comer de acordo com elas não nos interessa. O valor energético dum alimento é o mesmo quer se fale de uma fast-food ou de uma mão de frutos secos. No entanto, estes últimos são nutricionalmente mais ricos, vão-nos dar mais e melhor, vão contribuir para um melhor funcionamento do organismo. E é importante fornecermo-nos energia de qualidade.

 

A gordura (lípidos/ácidos gordos): é essencial!

Não deverá ser excluída da nossa dieta, devendo ser consumida com moderação. As gorduras saturadas, hidrogenadas ou ácidos gordos trans (as “más”), são-nas porque fazem aumentar o “mau colestrol” e levam ao desenvolvimento de doenças inflamatórias e crónicas. O óleo de coco, apesar de ser uma gordura saturada, contém um composto chamado “ácido láurico” que atua positivamente no nosso sistema imunitário e tem a vantagem de, quando submetido a temperaturas elevadas, manter o seu valor nutritivo, ao contrário de outras gorduras saturadas ou até do azeite. A gordura insaturada é a “gordura boa”, existindo a mono (p.ex, azeite) e a polinsaturada (p.ex, sementes), sendo protetora dos nossos órgãos e fazendo parte da constituição das nossas células. O colesterol, que existe apenas em produtos de origem animal, é uma gordura “má”, mas o consumo concomitante de fibras faz diminuir a sua absorção. No entanto, sabe-se hoje que o consumo de colesterol alimentar não faz aumentar tanto o nosso colesterol sanguíneo  como antes se pensava. Por fim, os fitosteróis, estruturalmente semelhantes ao colesterol, mas de origem vegetal, têm efeitos comprovadamente benéficos no nosso organismo, atuando na prevenção de doenças.

 

Os hidratos (simples ou complexos): são necessários!

Dão-nos a energia para podermos agir e pensar, digerir e assimilar nutrientes, manter a temperatura corporal, praticar exercício físico e ainda fazem parte do nosso ADN, responsável pela conservação e transmissão da nossa informação genética. No entanto, mais uma vez, exige moderação nas quantidades. Devemos, além disso, ter em atenção o “índice glicémico” dos mesmos, isto é, a rapidez com que aumentam os níveis de açúcar no sangue. Os cereais integrais, por exemplo, são absorvidos mais lentamente, fornecendo a energia de forma gradual e estabilizada. Já os açúcares simples têm uma absorção rápida e provocam um pico de açúcar no sangue que vai induzir o nosso pâncreas a “soltar” grandes quantidades de insulina, provocando baixas de açúcar compensatórias. Estes altos e baixos de açúcar no sangue são muito prejudiciais ao nosso organismo, devendo estes ser evitados ou até completamente abolidos da nossa dieta.

 

É importante termos a noção que o benefício de cada nutriente existe em conjugação com outros. Um hidrato não é só um hidrato. Tem vitaminas, minerais e nutrientes adicionais que enriquecem o nosso organismo. É importante manter uma alimentação equilibrada, diversificada e sazonal, em qualquer tipo de dieta, para fornecer o conjunto adequado e variado de nutrientes que vão enriquecer e proteger o nosso corpo..

A dieta mediterrânica continua a ser a mais recomendada pela Organização Mundial de Saúde, na medida em que nos fornece as porções e nutrientes mais indicados para uma vida saudável. Mas também as dietas vegetariana / vegan são igualmente indicadas - e isto é verdade desde a infância à idade adulta. Não podemos é esquecer que estas e outras dietas não são obrigatoriamente saudáveis. É preciso bom senso, conhecimento e ponderação na escolha dos alimentos que vamos fornecer a nós próprios e que nos façam bem.

Posto isto, digo-vos:

Mudar os hábitos de uma vida e manter alterações a longo prazo não é fácil.

E não o é com 20 ou com 60 anos. Mas é possível. É tão possível quanto o nosso querer e a nossa vontade. Exige foco em objetivos, organização e planeamento. Exige entrar numa rotina que num mês se torna a nossa. E exige pensarmos na palavra “dieta” como uma mudança alimentar para um estilo de vida que nos vai manter vivos, fortes e saudáveis e que nos trará qualidade no nosso dia-a-dia, na forma de estar, de comunicar e conviver.

E quem não quer viver melhor?


 
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A Carolina é médica interna de pediatria no Hospital de Viana do Castelo. Natural da Ilha da Madeira, é dedicada à nutrição, medidas de estilo de vida saudável, promoção de saúde e prevenção de doença. É também amante de viagens e novas experiências, gosta de música e dança e tem um gosto especial por fotografia e escrita. Para seguires o trabalho da Carolina, clica aqui