O Corpo Perfeito Começa No Teu Interior

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By Vânia Duarte, Designer & Blogger


Imagem corporal. Vida saudável. Comer bem. Treinar ainda melhor.

Todos os dias o nosso cérebro é invadido por influências externas. De pessoas que mudaram, que conseguiram corpos de sonho. De pessoas que treinam todos os dias, que se alimentam impecavelmente bem e que nos motivam a, também nós, criarmos uma melhor versão de nós. 

Criar uma melhor versão de ti? O que é isto na realidade? 

Durante anos - mais concretamente 15 - eu quis ser uma melhor versão de mim e de cada pedaço do meu corpo. Durante todo este tempo, eu sempre achei que a versão que tinha não era suficiente. E que precisava de mudar, mudar sempre, mudar para sempre. E sim, é verdade que tive excesso de peso e que sofri de bulimia, mas mesmo depois de o perder continuei a querer procurar a minha melhor versão.

E procurei, procurei de forma tão obsessiva e durante tanto tempo, que acabei por ficar doente e percebi, finalmente, que nunca ficaria satisfeita com a minha versão enquanto não me curasse interiormente. Enquanto não curasse a relação como entendia a comida, o exercício e a minha própria imagem corporal. 

Dou por mim regularmente a observar contas de inspiração fitness. E o que vejo são poses iguais. Medos iguais. Promessas iguais. A vida saudável tornou-se um meio para trazer ao de cima grandes obsessões com a imagem corporal. De repente, o grande objectivo é ter-se um corpo perfeito. Um corpo imaculado aos olhos de quem quer que passe por aquela fotografia. Um corpo perfeito para mostrar na praia. Um corpo perfeito para as selfies no ginásio. De repente, ter um corpo perfeito passa por ficar bem aos olhos dos outros, mesmo que por trás exista dor. Exista alguém que não consegue comer sem pesar cada grama que ingere. Mesmo que, por trás, aquela pessoa que tanto admiramos continue a ver-se exactamente como se via antes.

Imperfeita. Insuficiente. Incapaz. 

O que sinto é que hoje em dia, é cada vez mais difícil saber qual o caminho certo. Porque surgem dietas novas todos os dias. Porque surgem alimentos maus e exercícios espectaculares todos os dias. Ter o corpo perfeito passou a ser uma espécie de receita, que te é vendida como algo que se cumprires religiosamente irás alcançar.

E tu cumpres tudo, mas ninguém te explica o mais importante: que nisto de procurares a tua melhor versão, as emoções têm um grande impacto. E é exactamente por isso que por mais dietas e planos alimentares que cumpras, enquanto não te conheceres interiormente, enquanto não agarrares nos teus medos com as duas mãos, irás falhar constantemente nisto do corpo perfeito. 

Porque o corpo que imaginas para ti como perfeito, na maioria das vezes, não passa de uma utopia. Não porque sejas fraca, mas porque, às vezes, a tua constituição física não é igual à daquela pessoa que tanto admiras. Mas em vez de te explicarem isto, de te fazerem ver que é OK não teres uma cintura esguia ou uns abdominais definidos, o que as redes sociais e todas as inspirações te dizem é que o metabolismo é tramado e que é preciso gastares rios de dinheiro em suplementos que te vão ajudar a queimar o que tens a mais.

E de repente cuidar do corpo, cuidar deste templo que te permite viver, passa de algo que deveria ser levado com amor para tristeza, frustração e culmina, muitas vezes, em compulsões alimentares. Quantas vezes não me aconteceu isto? Quantas vezes terá acontecido a ti? Quantas vezes não acabaste a descarregar as tuas frustrações na comida? A lidares com os teus sentimentos com aquilo que está mais à mão e, na realidade, te transmite uma grande satisfação momentânea? 

Eu vivi anos a achar que era fraca. Porque falhei com muitas dietas. E falhei sempre da mesma forma: a comer mais do que realmente devia. E estes anos todos de dietas, busca de corpo perfeito e compulsões deixaram-me marcas interiores muito grandes. Fizeram-me acreditar que eu nunca seria perfeita porque não tinha a força das pessoas que eu admirava. Fizeram-me odiar, durante anos, todo o meu corpo e só quando voltei a bater no fundo novamente é que percebi que, mais do que de uma dieta, eu precisava de me curar interiormente. 

Curar toda esta minha relação com a comida e com a forma como facilmente a usava como prémio, fosse de celebração ou de consolação. Precisava de curar a minha visão interior. E perceber que nada neste corpo é imperfeito. Nada neste corpo está errado. O que está errado é efectivamente a forma como nos é vendido o significado de corpo perfeito.

Eu apoio quem queira mudar, quem não se sinta bem com o seu peso e o queira perder, mas tem de haver um limite e, acima de tudo, o interior tem de acompanhar.

Mudar tem de ser entendido como um todo. 

Eu acredito profundamente que só encontrei a paz que tenho hoje relativamente à comida e ao meu corpo quando decidi curar-me interiormente. Quando decidi começar a olhar para mim de dentro para fora, e a perceber o porquê de querer ser alguém que eu não era ou ter um corpo que não me fez realmente feliz. 

Hoje em dia, eu tenho um corpo perfeito. E não, não é minimamente seco nem de revista. Mas é um corpo em paz. É um corpo que vive em perfeita harmonia comigo, com o espelho e com o mundo. No fundo, eu sinto que ao aprender a lidar com as minhas emoções e expectativas do que é ter um corpo perfeito, reprogramei toda a forma de lidar comigo. 

E cada vez mais acredito nisto: o caminho para a nossa paz pessoal está nesta nobre e árdua tarefa de olharmos com verdadeiros olhos de ver para o nosso interior.

 


 
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Vânia Duarte tem 32 anos é designer digital e autora do blogue Lolly Taste. Viveu 15 anos presa a uma imagem corporal distorcida e travou longas batalhas contra a bulimia, compulsão alimentar e ansiedade. Em 2016 depois de ter ficado novamente doente, deu início à sua cura interior e começou a trilhar um caminho de amor próprio. Hoje em dia procura quebrar todos os conceitos de corpo perfeito e mostrar que é a tua singularidade que te torna a pessoa mais bonita do mundo. Para te conectares com a Vânia, clica aqui.