Da falácia "Women in Tech" e Das Demais Kryptonites da Consciência Humana

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By Filipa Larangeira, CEO & Founder, Newmanity


No mês passado lecionei um módulo na NOVA SBE intitulado “A New Generation of Female Leaders”.

O que começou por ser uma disciplina opcional de Mestrado passou a uma experiência transformativa, tanto para algumas das alunas como para mim...ou sobretudo para mim.

Tive inúmeros “HAHA moments” - ou epifanias - à medida que debatíamos as diversas vagas do feminismo, o gender gap e como o resolver , a importância da diversidade na construção de organizações mais sustentáveis e como podem as mulheres desempenhar papéis de liderança transformativa.

E podem pensar: mas os homens não podem fazer tudo isso também?

Claro! Devem até.

A questão é que ao longo dos séculos os homens encarregaram-se de construir uma “armadilha” para eles próprios, a qual tem hoje sérios impactos no seu desenvolvimento individual, relacionamentos interpessoais e na forma como encaram o trabalho.

Os homens inventaram a guerra como forma primordial para resolução de conflitos, e isso tornou os seus coração dormentes, e enfraqueceu-lhes a biologia.

As mulheres por seu turno foram poupadas a esse horror e ficaram em casa, a evoluir e a fortalecerem-se. Os homens tiveram também a brilhante ideia de inventar o consumismo desenfreado para alimentar os seus negócios unicamente orientados ao lucro. Fizeram-nos crer que nesse processo por mais e mais, a competição era a única forma de vencer, por mais que intuitivamente sempre soubéssemos que a união faz a força.

Esse “dividir para reinar” afastou-os da sua verdadeira natureza e da força da cooperação. Depois o homem quis dominar outros homens - as "minorias" - e as mulheres - o “sexo fraco” - e decidiram que as crianças eram responsabilidade das mães, o que ainda os apartou mais da humanidade e do poder dos relacionamentos humanos.

Por último veio a tecnologia, e o homem então refugiou-se atrás das máquinas e parou de comunicar, inclusivé para tentar perceber como poderiam essas máquinas servir a humanidade.

O homem isolou-se, adoeceu-se e com isso, perdeu-se.

Os homens não têm medo do compromisso ou são insensíveis. Biologicamente nada nos distingue. Mas a história teve esse impacto nos seus corações, entorpecendo-os.

Ao mesmo tempo que o faziam iam desenhando os sistemas políticos, educativos, sociais e económicos que hoje vemos um pouco por todo o mundo, os quais temos profundamente enraizados nas nossas crenças e hábitos.

Significa isto que foram os homens que determinaram que todas as crianças deveriam ser educadas da mesma forma, todos os jovens deveriam ser avaliados com base em Q.I. e rankings, que o melhor sistema económico era aquele que privilegiava a concorrência e o focus em fazer dinheiro - a qualquer custo - , que a classe trabalhadora deve ser avaliada à hora ou até adoecer, que mulheres e homens deveriam ter identidades e comportamentos catalogados, que a melhor forma de governar era com base na ambição desmedida e na falta de transparência...tudo isso e muito mais, foi da responsabilidade dos homens.

Mas, e há sempre um “mas” , este sistema que perdura há séculos é também em parte responsabilidade das mulheres que não o questionam e ainda o reforçam, a meu ver, por falta de consciência, falta de confiança, ou ambas.

Sem nos darmos conta, talvez por esta música da desigualdade, da violência e do separatismo ter tocado tantas vezes, nós mulheres começamos a acreditar que esta era a única forma de viver...sobrevivendo.

Então entrámos na luta, na luta por provar que também conseguimos "lá" chegar, que também éramos suficiente, que também dispunhamos das armas deles e estávamos prontas para disparar. Fomos trabalhar horas incontáveis e em prejuízo de nós mesmas e dos nossos filhos que vivem aprisionados pelo menos 8 horas (!!!) num sistema kafkiano que apenas promove mais desigualdade, frustração, violência e separatismo.

Aumentamos o nosso portfolio de competências técnicas para provar que o nosso Q.I. era tão elevado quanto o deles, e mais recentemente fomos levadas a crer que só fecharíamos a desigualdade de género se estudássemos uma disciplina STEM - Engenharia, Matemáticas (!!!).

Por último empoderámo-nos fazendo o mesmo que "eles": ridicularizando-os, ou atacando-os por toda e qualquer infantilidade ou falta de consciência.

Não estou com isto a desculpabilizar comportamentos criminosos ou eticamente condenáveis, mas entrámos na Era do julgar o todo pela parte.

Quando é que vamos parar de cometer os mesmos erros que tanto dano nos causaram ?

Quando é que vamos perceber que somos suficientes e que não precisamos de mais nenhum prefixo para sermos válidas ? Porque raio ser Woman in Tech é mais importante que ser só Woman ?!

Até quando vamos acreditar nas mesmas mentiras que levaram Trump ao poder, ou que edificaram um sistema em que as empresas adoecem os seus colaboradores, enganam os seus clientes, enquanto destroem o planeta (a única casa que temos!) ?

A meu ver o segredo para fecharmos o gender gap está em usarmos os super poderes femininos - que existem em homens e mulheres - e eles são nomeadamente a compaixão, os valores humanos, a verdade, a intuição, o zelar pelo bem comum e a capacidade de ver mais do que os olhos alcançam.

Não me entendam mal: à medida que fui estudando o feminismo mais orgulho tinha em tudo o que foi conquistado por mulheres incríveis desde as sufragistas a referências como Rosa Parks, Simone de Beauvoir, Coco Channel, Marlene Dietrich, ou mais recentemente Hilary Clinton ou Oprah Winfrey. E para quem não sabe - como eu até investigar a fundo o tema - todos os movimentos feministas foram também catalisadores de outros movimentos cívicos como o fim do apartheid, os direitos da comunidade LGBT ou o final da guerra do Vietnam.

Mas a guerra acabou! É altura de liderar pelo exemplo e esse exemplo reside em aceitarmos a sombra e a luz que TODOS os seres-humanos possuem.

Neste processo as mulheres têm sem dúvida uma enorme vantagem e por isso, e muito em breve, os homens precisarão de ajuda.

Na recente conferência de Davos, a jovem Nobel da Paz Malala Yousafzai, apela precisamente a essa mudança de consciência que deverá ser encabeçada por mulheres, as quais não devem esperar que serem seguidas - ou mesmo entendidas - pelos homens.

Isso não significa que o façamos sem eles. Significa que o fazemos por nós e por eles também... por todos nós.

Porque vão então ser as mulheres a liderar o movimento global de mudança de consciência da humanidade?

Apesar da repressão, dos abusos, da desconsideração, da humilhação foi-nos “permitido” mantermos intacto - ou quase - aquilo que nos distingue das máquinas e nos vai fazer vingar: o coração.

O coração da mulher tem feridas e amolgadelas, mas pode chorar, expressar-se, amar, desamar, odiar, gritar e viver em pleno. Podemos ser “emocionais”. Mas os homens, não.

O World Economic Forum já estimou as skills mais importantes para o futuro e a maioria estão directamente relacionadas com o relacionamento interpessoal e empatia.

Por outro lado mostram também claramente as tendências, que as organizações do futuro serão cada vez mais direcionadas pelo propósito, cooperação e sustentabilidade, por oposição ao actual paradigma.

Depois vêm - já cá estão - as máquinas, que substituíram tudo o que são actividades lógicas e desprovidas de sensibilidade e criatividade.

O mundo está a mudar rapidamente e cabe-nos a nós mulheres sermos o exemplo de uma transição pela paz, pelo amor e pela cooperação.

Uma mudança inclusiva e paciente, connosco mesmas, mas também com os homens. Porque nesta nova humanidade, todos somos necessários.

Be the change you wish to see in the world.

Com amor e fé na Humanidade - homens e mulheres -

Filipa Larangeira