Desconectar Para Conectar

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By Daniele Simões, Analista de Tendências


Sempre gostei de sentir na pele e analisar com minhas próprias lentes tudo aquilo que coloco em palavras. Intuitivamente, comecei a ler e colecionar movimentos que abraçam o Digital Detox e enxergam o equilíbrio entre bem-estar e vida moderna como uma urgência.

Quando percebi que já não conseguia separar eu mesma do smartphone ao dizer 'minha bateria vai acabar' e 'estou sem sinal', decidi que era hora de atravessar todas as telas e organizar a bagunça. Vítima do tribunal da internet e sua exigência de produção constante, estava a comparar e julgar todo instante, longe de realmente experienciar a imensidão ao meu redor.

O documentário Quanto Tempo o Tempo Tem aponta: o futuro chegou de repente. É cada vez mais cotidiana a simbiose homem e máquina.

 

O smartphone virou a extensão humana, armazenando nossa identidade e memória em um HD externo.

 

Para entender de perto como a atmosfera virtual ganhou relevância em minha vida, aceitei o desafio de ficar um mês sem redes sociais, número alto para quem costuma checar as notificações de cinco em cinco minutos e dormir com o aparelho debaixo do travesseiro.

Logo no primeiro dia, surgiu um vazio gritante, parecia que uma parte de mim estava ausente - e realmente estava. Mas, em seguida, essa falta transformou-se em um silêncio acolhedor. Com o passar da resistência, a ansiedade diminuiu, o tempo transbordou e as mãos ficaram livres para escrever Poemas Casuais, regar as plantas e jogar a bolinha para o cachorro.

 

" Não olhar o celular é passe de mágica para um mundo que te chama." - Poemas Casuais

 

Também enfrentei o medo de não estar em permanente contato, foi como vestir uma capa de invisibilidade. Inclusive, recentemente constatei que existe a Nomofobia, fobia causada pelo desconforto ou angústica resultante da incapacidade de acesso a aparelhos de comunicação móvel.

 

Antes de dormir, em oposição a navegar na internet, passei a mergulhar dentro de mim.

 

Em um piscar, mesmo, descobri que ao fechar os olhos o universo congela e, em modo pause, o volume das distrações diminui fazendo com que seja possível ouvir o oceano que existe em nós, o eu interior.

Há meses que eu não parava para sentir a vibração do meu coração!? Eu vivia com uma pressa sem razão e guiada por uma profunda incompletude. Estava imersa em uma rotina rasa, rápida e fragmentada, assim como as informações que recebia. Era maratonista na corrida pela felicidade instantânea.

Toda essa busca por likes, relevância, alcance e interações incessantes faz surgir em mente cenas do episódio Nosedive, da série Black Mirror, onde a protagonista é obcecada pela sua reputação entre uma sociedade dividida por estrelas de recomendação.

Em dez anos, a forma de comunicar mudou completamente. Ao excluir aplicativos sociais, para muitos passei a ser um alguém incomunicável.

 

Posso dizer que estive em um 'coma virtual', no qual a percepção de estar em outra realidade insistiu em dominar a narrativa.

 

"Por onde mundo? Aqui dentro." - Poemas Casuais

 

Somos seres automatizados, desde a infância estabelecemos comandos no cérebro sem perceber. Acredito que o mesmo acontece na sistemática do online: responder e-mails logo cedo, confirmar presença no evento do Facebook, acompanhar o dia a dia de desconhecidos no Instagram, distribuir corações, interagir no grupo do Whatsapp, limpar os aplicativos do vermelho e assim gastamos horas com hábitos mecânicos.

Durante a desprogramação, por alguns dias e lutando contra estímulos enraizados, consegui reconhecer a delícia de ser uma Now Person. O presente nunca falha, sempre está inteiro. Quando estamos totalmente abertos para ele, sentimos a eternidade. O título escolhido não é um erro, realmente é necessário desconectar para conectar, assim como desaprender para aprender.

 

"Para ver borboletas, esquece o tempo e sente o lazer e descanso de uma eterna miragem." - Poemas Casuais

 

É inevitável concordar que com a invenção da internet abolimos a separação espacial. Passamos a ser conexos e simultâneos. Somos um só? Segundo o 8FACT, apesar da população mundial crescer em média duzentas mil pessoas por dia, a humanidade está mais solitária.

Uma grande ironia é pensar que buscamos pertencimento ao caminhar concentrados em uma tela, ao invés de trocar olhares com quem cruza os mesmos passos. Seria uma solidão compartilhada? Estamos juntos e sozinhos?

 

" Na era digital, brilho nos olhos é ficção." - Poemas Casuais

 

Acho importante destacar que eu valorizo e reconheço as inúmeras transformações que a web continua proporcionando rumo à horizontalidade, sou fã. Não tenho medo da Tecnologia, as dúvidas surgem quando penso no modo como a utilizamos.

 

O paraíso mora no equilíbrio. Até o celular deseja estar sozinho, demanda recarregar as energias - nós também.

 

Hoje em dia é praticamente impossível viver isolado do digital, de uma forma ou de outra, ele estará presente. Gosto de dizer que o online e offline deram vida a uma nova dimensão: a onlife.

Transformando meu Digital Detox em sensações, ficar longe do smartphone é ampliar sentidos, é notar o vento no pescoço e descobrir desenhos em nuvens. É escutar o instinto, redescobrir a imaginação e saber que nem todas as respostas estão no Google. Também é acordar despreocupada e usar menos colírio, risos.

Todas as pessoas coabitam no íntimo de um casulo que filtra a realidade, dialética que elege o imperialismo do eu como o grande vilão do momento. Um egocentrismo cíclico, pois estamos em um processo de concordar com exatamente tudo que concordamos.

O despertar da consciência está em guardar segundos para repensar atitudes e abrir manualmente novas perspectivas.

 

Fechar o campo da certeza, abrir o da empatia e entender que a atenção plena é um remédio natural.

 

Apesar dos insights, é com sinceridade que deixo claro que este distanciamento descrito aqui foi apenas uma prática calculada, diversos impulsos fizeram eu voltar a hiperconectividade, mas desta vez com a delicadeza de dosar a concordância entre Humanidade, Natureza e Tecnologia.

Para finalizar esse breve diário com um call to action, listo abaixo algumas ideias e alternativas para quem divide comigo um consumo de informação abusivo e que também deseja passear entre os prazeres do Balanced Self:

 

 

Chapel of Silence

Frente a um mundo barulhento em discussões e radicalismo, cada vez mais fica difícil encontrar um lugar repleto de paz e silêncio, seja ele interno ou físico.

A mente precisa ventilar e por isso nasceu a Chapel of Silence, lugar comum onde membros de diferentes crenças sentem-se bem-vindos, confortáveis e com o coração aberto. A capela fica no topo de um vale, rodeada por uma floresta e vinhedos, na região de Botticino, Itália.

Como o próprio nome indica, é um espaço de silêncio, adoração e respeito, que consegue fugir do extremismo ao criar um ambiente onde a paz é capaz de reinar sem dividir.

Manifestação que acompanha a evolução da sociedade, tanto na questão da proximidade com a natureza, como também na aceitação de que viveremos ad aeternum em um mundo discordante, e isto não é um problema.

 

 

Getaway Houses

Uma grande candidata a droga do século é a instantaneidade, expert em multiplicar ansiedades e fonte do stress digital. O excesso de conteúdo, junto com o paradoxo do tempo, funciona como uma mochila de cinquenta quilos nas costas.

Amante de um bem-estar holístico, a Getaway Houses oferece cabanas confortáveis, quentinhas e no meio da natureza. A sensação é de privacidade e a estadia funciona como um refúgio do caos de Nova Iorque.

Quando você aluga uma cabana, descobre o endereço apenas dias antes do check-in. Junto com a localização, o hóspede recebe uma playlist para ouvir durante o caminho, sempre decorado com placas indicando a direção do destino para que não seja necessário ouvir a voz do GPS. Ao chegar, o clima é perfeito para acampar em todas estações, com chuveiro elétrico e aquecedor, o frio sempre fica do lado de fora.

No espaço também estão disponíveis livros como o 'How To Stay Alive In The Woods'. O  momento surpresa fica por conta da caixa bloqueadora de smartphones, estratégia para que quem esteja ali presente, não perca nenhum segundo de um completo descanso.

 

 

The Disconnect Magazine

A internet carrega um conhecimento ilimitado, mas também funciona como um labirinto para infinitas distrações. The Disconnect Magazine é uma revista que existe apenas no offline e que aborda temas como ficção e poesia.

Iniciativa que obriga o leitor a esquecer o digital e, consequentemente, deixar para trás um bombardeio de anúncios e informações irrelevantes. Trata-se de um experimento que combina o ritmo e a intencionalidade da mídia-antiga com a acessibilidade e natureza inventiva da nova-mídia.

 

 

Space

Diferentes estudos apontam que consultamos o smartphone, em média, cem vezes ao dia. O Space é um aplicativo com a proposta de ajudar a encontrar um balanço igualitário entre a vida on e off. Mais de oitocentas mil pessoas já fizeram o download e estão em busca de curar ou controlar o vício digital.

As ferramentas proporcionam ao usuário o acompanhamento das horas navegadas. Após responder algumas questões, o app define seu perfil e oferece uma receita. No meu caso, sou uma Boredom Battler, eu mexo no celular para preencher o tempo e acabo horas hipnotizada. Com o intuito de atingir o Phone Life Balance, na primeira fase, estou permitida a mexer uma hora e meia, com bloqueios de trinta minutos entre esse período.

 

 

Jornada Sonora Terapêutica

O francês Pierre Stocker, idealizador da Jornada Sonora Terapêutica, ajuda as pessoas a sintonizarem no agora através de uma imersão musical meditativa, que conduz o ouvinte a seu universo interior.

A atividade quebra as algemas do tempo ao combinar doze instrumentos vibracionais, sob um fundo musical de sons da natureza, que juntos atingem a capacidade de estimular a memória saudável do corpo. Em outras palavras, os sons emitidos propagam entre as moléculas de água, que compõe setenta por cento do nosso corpo, chegando aos ossos, órgãos e tecidos pelo fenômeno da ressonância.

Ainda, os harmônicos relaxam o cérebro e aliviam o sistema nervoso central. As paisagens sonoras criadas durante a jornada evocam múltiplas imagens arquetípicas e universais, instigando o inconsciente pessoal e coletivo.

 

 

Restival

Quando foi a última vez que você não fez nada? Nós vivemos em um mundo compulsivo em estar ocupado.

Restival é um anti-festival, evento que acontece no deserto do Saara , sem hora do rush, agenda, despertador e digital-free. Um #byedigitalworld onde o sol é o relógio e os olhos as câmeras fotográficas. Aqui, a JOMO (joy of missing out) brilha durante aulas de meditação, arte, yoga, dança e observação das estrelas.

 

 

Digital Wellness Escape

Ao perceber que nem todo mundo consegue tirar férias e fugir para um lugar remoto, o Mandarin Oriental Hotel criou o Digital Wellness Escape, tratamento de oitenta minutos para aliviar as tensões causadas pelo uso frequente de aparelhos digitais. Uma experiência que acontece em plena Nova Iorque, na cidade que nunca dorme.

Após colocar o smartphone em seu devido recinto de descanso, a limpeza começa com um banho que ajuda a eliminar os radicais livres que absorvemos através da tecnologia. Em seguida, uma massagem para regular a postura, que diariamente é judiada enquanto passamos horas curvados e conectados entre screens. Ao final, você e o aparelho saem prontos para dividir novas aventuras e dependências.

 


 
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Por fora, a Daniele é uma profissional metade Brasileira, metade Portuguesa, que carrega em sua bagagem um diploma em Comunicação Social e uma pós-graduação em Comunicação e Tendências, junto com experiências em Redação, Criação, Planeamento e Marketing. Por dentro, é uma pessoa que acredita em ideias com impacto social e na importância de estudar comportamentos e mentalidades emergentes. Para te conectares com a Daniele, clica aqui.