Em Busca da Sustentável Beleza

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By Daniele Simões, Analista de Tendências


Os ventos da modernidade e do capitalismo, de forma simbólica e concreta, nublam a primordial importância da Terra ao fazer do planeta um gigante centro comercial, ao invés de casa. O paradigma que ilustra o agora é a Hipermodernidade Líquida, ambiente dominado por um caráter volátil, responsável por rápidas e profundas mudanças nas estruturas sociais. O resultado são relações fluídas e o hiperconsumo, assim como constantes desastres ambientais. 

Como diz Al Gore em seu livro Uma verdade Inconveniente’: "Essa vida é projetada para monopolizar nossa atenção, para nos vender coisas, para nos empurrar de um lugar para o outro, para nos concentrar em assuntos que parecem vitais, mesmo quando não são. Esse ambiente artificial é tão abrangente que pode parece que ele é tudo que existe no mundo. A natureza, em contraste, move-se devagar, não exige nada, e talvez para muita gente não impressiona tanto assim. Mas se você nunca se colocou na natureza para perceber que a sua essência é a nossa essência, você fica inclinado a tratá-la como algo trivial. Fica disposto a abusar dela e destruí-la pelo descuido, sem perceber sequer que esse modo de agir está errado. A natureza se torna um papel de parede, um pano de fundo da experiência sem revelar seu significado mais profundo. No entanto, tudo que fazemos para a natureza, fazemos para nós mesmos”.

Depois das catástrofes de 2004 e 2005, sustentabilidade passou a ser a palavra da vez, rumo a um imaginário Green Future. Porém, ser sustentável não mora apenas dentro de um selo e, para muitos, ainda parece ser algo inalcançável. A verdade é que sustentabilidade emana da prática de pequenos atos, atos de fazer escolhas ecologicamente corretas. São atitudes e hábitos que vivem na simplicidade, estão no quotidiano, como: é perto? Então, deixa o carro em casa. Não fique com preguiça de separar o lixo. Aproveite ao máximo a luz do sol e adote uma ecobag.

Sustentabilidade vai além do consumo, ela também está nos processos de criação, na importância de repensar os materiais e ciclos de vida dos produtos, de acordo com as respostas que o universo exige. Sustentabilidade, ainda, é um dos tópicos do Zeitgeist (Espírito do Tempo), um assunto poderoso juntamente com Bem Estar, Transparência, Informação, Crise e Economia.

É hora da era do consumidor-autor e consumidor-cidadão, assim como a era das consequências. Com o nascimento da Internet e respectivamente do open review, o consumidor que até os anos 90 era passivo e seguidor, passa a ser protagonista das próprias escolhas. Felizmente, com a expansão da informação, as pessoas estão mais críticas e exigentes, panorama que abriu uma intensa busca por política e cidadania ao consumir determinado produto ou serviço. Lembrando que a decisão de compra é uma decisão social. Quando você compra de uma marca específica, está a apoiar toda a cadeia de seleção dela, seja positiva ou negativa.

Ler dados como "se o comportamento atual for mantido, até 2050 será preciso duas Terras para sustentar a humanidade" e "99,9% de todas as espécies que já habitaram a Terra estão extintas" funciona como bater o dedinho do pé em um dia frio, dói. Contudo, toda ação traz uma reação. Contra essa produção em massa, surgem movimentos como o êxodo urbano e  Lowsumerism, este último abre o diálogo do comprar menos, buscar alternativas e viver apenas com o necessário. 

Como tendências dessa nova mentalidade, há a Sustainable and Shared, consciência de que os recursos naturais são finitos; Rational Consumer, nova percepção sobre qualidade e preço, e Meaningful Compassion, seguidora da empatia e compaixão. 

Em homenagem ao mês que comemora-se o Dia do Planeta Terra (22 de abril), estão listados abaixo ideias, projetos, manifestações e perspectivas que engrenam o lado oposto da autodestruição e que também espalham sementes de esperanças na humanidade:

 

I. Casa é um sentimento

Menos é mais

'Minimalism: A Documentary About the Important Things’ conta a trajetória de dois corporativos que largaram o terno e a gravata, adoptaram o Minimalismo e caíram na estrada com a missão de incentivar pessoas a viverem com menos nos Estados Unidos.

Tudo que você poderia sonhar foi pensando. Segundo o documentário, o consumo faz parte da vida, o problema é o consumo compulsório, oriundo de uma falsa receita mágica de felicidade. A propaganda está infiltrada na cultura e, obsessivamente, instiga qualquer um a comprar objetos sem questioná-los -  e é por isso que as pessoas constroem garagens para três carros.

Pesquisas apontam que 40% do espaço de uma casa não é utilizado, ou seja, um grande vazio repleto de pertences sem propósitos que apenas criam distâncias entre pessoas. A Life Edited mostra que é possível viver ‘grande’ em casas e apartamentos pequenos, caminhando além do que o sonho americano propõe: quanto maior, melhor. É um conceito compacto que fomenta o Smart Design e o financeiramente inteligente, estratégias muito mais ecológicas e sociais comparadas com o restante do mercado.

Quando você tem menos coisas, a desordem, o stress, as dívidas, as insatisfações e as distrações também diminuem. Em compensação, você abre espaço para mais relacionamentos com sentido, contribuição e contentamento. No fim das contas, menos é realmente mais – e deixa para lá a matemática.

 

Móveis para a vida toda

Casa tornou-se um sentimento, ao contrário de um espaço físico. Como consequência de um espírito livre e nómada, as pessoas estão mudando de emprego, apartamento, cidade e país com muito mais frequência.

Quem nunca viu um sofá abandonado na rua? Infelizmente, os móveis não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças, muito menos alcançar a velocidade da Moda. Em resposta à essa divergência de tempo, produtos volumosos, como sofás, acabam virando lixo.

A Strata, marca de móveis modulares, chegou para apoiar a economia circular e diminuir o desperdício de resíduos volumosos. Os móveis são criados em camadas (pele, meio e base), característica que facilita as mudanças, sejam elas de gosto ou de espaço.

As peças são feitas com materiais de longa-duração e também não são engessadas, permitindo que sejam  facilmente ampliadas, que ganhem novas funções e, o melhor de tudo, personalizadas de acordo com o estilo. Esta nova concepção de mobília abre a porta do renovar e fecha a do trocar. De maneira sensata e prática, o ciclo do produto acompanha o ciclo de vida da pessoa e, no final da história, ninguém fica para trás.

 

II. Alimentação saudável além do prato

Uma Palhinha para chamar de sua

A redução do lixo marinho é alvo da campanha Mares Limpos, lançada pela Organização das Nações Unidas (ONU), no Rio de Janeiro. O objetivo é convencer pessoas e empresas a reduzirem o consumo de plásticos e evitar seu descarte. 

No entanto, não adianta pensar apenas nos sintomas, é preciso repensar a ‘doença’. Segundo o site The Last Plastic Straw, apenas nos Estados Unidos, 500 milhões de canudos são usados diariamente, quantidade que preencheria 46.400 ónibus escolares de plástico ou, para você arregalar mais ainda os olhos, quantidade suficiente para dar duas voltas e meia no planeta.

Ressignificar o conceito de Alimentação Saudável, indo muito além das refeições, e repensar o descarte de plásticos é a missão da Mentah!. Suas palhinhas (eco, lógicas) são fabricadas em vidro de boro silicato, inerte e termoresistente (o mesmo utilizado em laboratórios). Durável, reutilizável e, o mais importante, não gera lixo. Ainda, é a mais higiénica, pois é transparente e não adere restos de alimentos (como as de bambu e outros materiais). A pergunta que não quer calar é: para que ter várias palhinhas se você pode ter uma para chamar de sua?

 

Gente Bonita come Fruta Feia

Para começar, quantas vezes você reparou em frutas e legumes amassados deixados de lado? Lamentavelmente, é comum os consumidores irem ao supermercado e não levarem para casa as frutas imperfeitas, com o pensamento equivocado de que estão estragadas, além do fato de não carregarem nutrientes e não serem saborosas.

O coração aperta ao saber que, a cada ano, cerca da metade da comida produzida no mundo vai para o lixo, em contraste a 925 milhões de pessoas que todos os dias passam fome. Um simples hábito de consumo acaba a impulsionar uma cadeia de desperdícios que envolvem consequências éticas e ambientais. 

Essa ilusão perfeccionista carrega efeitos: os supermercados deixam de comprar as frutas feias dos agricultores, porém os agricultores não podem escolher a forma que a natureza brota. Com o intuito de aliviar esse absurdo, desde 2013, o projeto Fruta Feia luta para inverter o padrão de consumo e combater o desperdício alimentar em Portugal. Guiados pela responsabilidade cívica, eles compram produtos rejeitados pelos supermercados a um preço justo e vendem para clientes em pontos de entrega espalhados pelo país. Ponto, todo mundo fica feliz.

O destino da comida é virar alimento, ao invés de resíduo. Aqui fica uma frase para colar na geladeira, bem grande: gente bonita come fruta feia e já está na hora de matar a fome de um futuro saudável e eficiente. 

 

III. Fashion Revolution

Quem fez minhas roupas?

Fast Fashion, sem adornos, significa: um barato que sai caro. Literalmente falando, é uma comercialização onde produtos são fabricados em larga escala com o objetivo de serem consumidos e descartados rapidamente. É um sistema criado para você se sentir eternamente fora de Moda.

Antigamente, existiam 4 ou até mesmo 2 estações (frio e calor). Hoje, há em média 52 ‘estações’ por ano. Em outras palavras, o barato sai caro pois não paga o preço profissional (trabalho abusivo) e muito menos o preço ecológico. Estará o mundo virado do avesso?

As peças da Fast Fashion são usada, aproximadamente, 5 vezes e geram 400% mais emissões de carbono do que peças comuns, que são utilizadas 50 vezes. Sem contar o enorme desperdício de água, matéria-prima e energia. O poliéster, fibra têxtil muito usada nessa indústria, demora em torno de 200 anos para se decompor.

Em meio a um terreno repleto de tentações e armadilhas, surgem anti-forças que indagam essa insatisfação constante, que carrega em sua essência destruição e descontrole. Como força motora do despertar da conscientização, surgiu o Slow Fashion e o Fashion Revolution Day, movimento criado por um conselho global de líderes da indústria da Moda Sustentável que teve como clímax o desabamento do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, no 24 de abril de 2013, que deixou 1.133 mortos e 2.500 feridos.

A co-fundadora do movimento, Orsola de Castro, diz : “Nós queremos que você pergunte: ‘Quem Fez Minhas Roupas?’. Essa ação irá incentivar as pessoas a imaginarem o fio condutor do vestuário, passando pelo costureiro até chegar no agricultor que cultivou o algodão que dá origem aos tecidos. Esperamos que o Fashion Revolution Day inicie um processo de descoberta, aumentando a conscientização sobre o fato de que a compra é apenas o último passo de uma longa jornada que envolve centenas de pessoas, realçando a força de trabalho invisível por trás das roupas que vestimos”.

 

O sapato também pode ser vegano

A Insecta Shoes é uma marca brasileira de sapatos e acessórios, a diferença é que eles são ecológicos e veganos, sem nenhum uso de materiais de origem animal. Roupas usadas e garrafas plásticas, juntas, viram oxfords, sandálias, botas e slippers. 

Em dois anos de vida, a empresa reaproveitou 2.100 peças de roupas, 630kg de tecido e 1.000 garrafas pet. A proposta ainda abraça a questão da diversidade e do non gender, por isso todos seus produtos são unissexos.  Em seus diálogos, também estão o veganismo, feminismo e beleza e higiene natural.

 

Para finalizar o artigo, como disse Martin Luther King em um discurso, não muito antes de ser assassinado: “Precisamos enfrentar o fato, meus amigos, de que o amanhã já é hoje. Estamos de frente para a feroz urgência do agora. E nesse dilema da vida e da história, existe o que se chama de chegar atrasado”. 

O tempo é irredutível, o tic-tac nunca congela. A crise que rodeia a todos não é política, na verdade, é um desafio moral e espiritual, no qual perdem aqueles que não priorizam como meta a busca da sustentável beleza.


 
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Por fora, a Daniele é uma profissional metade Brasileira, metade Portuguesa, que carrega em sua bagagem um diploma em Comunicação Social e uma pós-graduação em Comunicação e Tendências, junto com experiências em Redação, Criação, Planeamento e Marketing. Por dentro, é uma pessoa que acredita em ideias com impacto social e na importância de estudar comportamentos e mentalidades emergentes. Para te conectares com a Daniele, clica aqui